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publicado em:20/04/18 3:02 PM por: Flagra by Dennis Rodrigues BlogsFlagra

Por Luíza Horta

De servente de pedreiro a pós-graduado. Entre os caminhos da sua trajetória, Seu Zé, como é conhecido por todos no Centro Universitário Estácio Juiz de Fora, trabalhou em diversos serviços até obter os diplomas de ensino superior e especialização, aos 58 anos de idade. Natural de Tabuleiro (MG), veio de uma família humilde, com doze irmãos. Concluiu o ensino fundamental – até o quinto ano – com a professora Mercezinha, como se recorda. Quando tinha 12 anos, seus pais faleceram, o que o levou a começar a trabalhar muito cedo. O primeiro emprego foi como mordomo em uma casa de família. Dentre as tarefas, era encarregado de servir as pessoas nas festas do domicílio, e acompanhava a filha da patroa em todos os passeios que ela realizava. “Naquela época, tinha uma coisa engraçada. As moças, quando namoravam, não podiam sair sozinhas. Eu ficava com o dinheiro na mão acompanhando a moça e o seu namorado nas festas, e depois os levava em suas casas”, relembra Seu Zé.

Com 17 anos, Seu Zé veio para Juiz de Fora a fim de conseguir emprego como servente de pedreiro na construção civil. Ao chegar, não se acostumou e quase retornou para sua cidade natal. “Nós não conhecíamos nada daqui. Através de uma família que conhecia nossos pais, conseguimos uma casa alugada para morar”, recorda-se. Após ser servente de pedreiro, trabalhou como ajudante de caminhão até conseguir emprego em uma multinacional em 1978: “Trabalhava em uma fábrica de seringas. A maioria das pessoas só tinha até a terceira série. Quando chegávamos à empresa, não tínhamos nem currículo.” Dias aprendeu a desenvolver suas habilidades, e se destacou, juntamente com sua equipe. “Nós ganhamos um churrasco para comemorar a melhor fabricação de seringas de todas as unidades da empresa, tanto do Brasil como do exterior. Vieram espanhóis para aprender conosco como se fabricava a melhor agulha”, comenta.

Enfrentando obstáculos através da educação

Após trabalhar por 16 anos na fábrica, Seu Zé viu a oportunidade de comprar a casa própria, porém não tinha reserva financeira. Para concretizar este desejo, resolveu aderir a um plano de demissão voluntária para receber o dinheiro da rescisão. “Tive muita sorte, parece que foi Deus quem ajudou. Foi uma loucura o que fiz, pois ganhava muito bem. Larguei um emprego muito bom para garantir uma casa própria”, conta. Desempregado, encontrou muitas dificuldades financeiras. Para sustentar a família, trabalhou como camelô e foi até catador de latinhas. Durante esse contratempo, viu algo que chamou sua atenção e que o fez reabrir os olhos para a educação.

“Uma vez eu li uma revista que tinha uma matéria sobre o Paulo Coelho, e eu não tinha nada para comer na época. Lendo sobre aquilo me veio a vontade de escrever”. Na época, ele não tinha nem caneta. “Minha mulher trabalhava em uma casa de família, na Rua Marechal. O filho da patroa estava fazendo um trabalho e jogou uma caneta no lixo. A minha mulher pegou a caneta e trouxe para mim. Foi com esta caneta que comecei a escrever os livros”, relata. Os livros a que José Dias se refere chamam “Inocente”, e foram registrados na Fundação Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Ele escreveu três livros, sendo que o primeiro foi registrado muitos anos depois, em 1999.

Mesmo sem ter o ensino fundamental completo, Seu Zé escrevia sobre assuntos referentes à política e à economia. Ele sempre acreditou em um país melhor, e encontrou na escrita um modo de manifestar os seus pensamentos sobre os assuntos, analisando as questões e propondo soluções que pudessem amenizar os problemas do Brasil. Com uma abordagem crítica e de muito entendimento, um trecho do seu primeiro livro sugere que o Governo da época em que foi escrito diminua os impostos para que a economia do país melhore:

“Veja bem, nos últimos anos qual foi a política do nosso Governo? Foi aumentar os impostos, desvalorizar o dinheiro, congelar e pedir empréstimos. Pagar alto juros aos banqueiros  internacionais. O governo nunca se preocupou com a política de desenvolvimento dos banqueiros brasileiros. Todos que passaram só pensaram em fazer milagres e mágicas. Nenhuma delas funcionou porque, na economia, não existe milagre. Quando o país brinca com a economia, os resultados são estes que estamos vendo. Mas isto não era para acontecer, foi porque os governantes trabalharam errado e continuam fazendo tudo errado. Quanto mais o governo aumenta os impostos, menos arrecada e não percebe. Quanto mais aumentam os impostos, mais os produtos se tornam caros. Produto caro significa menos pessoas comprando, e sinal de menos imposto para o governo. Ele não vê que quanto mais aumenta os impostos menos arrecada”.

Seu Zé chegou a concorrer aos recursos da Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura para a publicação dos seus livros. Ele conta que passou pela primeira fase de julgamento, mas foi vetado por não possuir grau de instrução compatível com o conteúdo de sua autoria. “Eu não podia publicar o livro porque não tinha estudos sobre o assunto. Eu só tinha até o quinto ano do fundamental”. Carregando caneta e papéis no bolso, ele escrevia trechos do livro por onde andava. Foi sua filha mais velha, Uiara Dias, de 34 anos, quem o ajudou e incentivou na busca pela literatura. “Eu escrevia o livro e minha filha corrigia. Na época, ela tinha 14 anos”.

As portas que se abriram

Tempos depois, oportunidades apareceram na vida de José Dias. Ele conseguira um emprego de porteiro, e trabalhou por muitos anos em condomínios. Durante os expedientes, surgiu a possibilidade de voltar a estudar: “Quando eu era porteiro, todo mundo sabia que meu sonho era estudar, e tive a chance de me inscrever na EJA, Educação de Jovens e Adultos. O meu irmão quem me contou. Disse que teria uma oportunidade no meu bairro para me matricular e fazer do 5º ao 9º ano”. Para concretizar esta primeira etapa do seu sonho de estudar, ele encontrou dificuldades, que não o impediram de concluir o ensino fundamental. “Quando eu fui me inscrever, tinha que apresentar o diploma de que tinha tirado até o quinto ano do fundamental, porém eu tinha perdido durante a mudança. Contei para a professora que meu sonho era voltar a estudar, mas que havia acontecido isso. Ela disse que sem o diploma não teria como me matricular, mas decidiu me dar uma chance. Ela me deu uma prova, e se eu passasse ela colocaria que eu tinha concluído”, revela.

Superado este obstáculo, teve que enfrentar outro durante toda a sua formação no ensino fundamental. Trabalhava como porteiro à noite, das 19 horas às 7 horas da manhã, em dias alternados, e por isso não poderia frequentar diariamente as aulas. “Ela disse que o curso era totalmente presencial e que não poderia faltar, mas que abriria uma exceção para mim. Se eu prometesse que iria acompanhar as aulas, fizesse os trabalhos e pegasse cadernos emprestados dos colegas, ela me deixaria estudar.” Seu Zé concluiu o ensino fundamental com muito esforço e dedicação.

Dias não esperava que a educação fosse bater à sua porta novamente tempos depois. Trabalhando ainda como porteiro, contou ao seu patrão sobre o seu sonho de estudar. Anos depois, este patrão tornou-se diretor da Estácio Juiz de Fora, e ofereceu a ele um emprego com direito a bolsa de estudos. Era uma vaga de faxineiro e Seu Zé nem pensou duas vezes, aceitou rapidamente a oferta. “Eu aceitei correndo, nem sabia onde era a Estácio, e nem dinheiro da passagem eu tinha. Consegui duas passagens com um vizinho”. Assim, se apressou para concluir o ensino médio na EJA para entrar no ensino superior. Ele iniciou a graduação em Marketing em 2009. Foi a professora Adriana Viscardi que lhe explicou como era o curso. A graduação era presencial, e a Estácio lhe deu todo apoio, ajustando sua grade de acordo com o horário do seu trabalho. “Eu ainda era faxineiro e trabalhava das 8h às 17h, e depois estudava das 19h às 22h30”, relembra. E assim foi sua trajetória. Formou-se no dia 22 de abril 2012 e, seis dias depois, matriculou-se na pós-graduação em Gestão de Pessoas. Determinado e sempre buscando conhecimento, não perdeu a oportunidade de realizar uma especialização.

Gratidão

José Dias é muito grato à Estácio por ter aberto as portas para a realização do seu sonho. De sua turma do ensino médio na EJA, apenas ele teve a oportunidade de cursar uma faculdade. “Quando eu entrei na Estácio, para você ter uma ideia, eu ganhava R$ 318, e a mensalidade do curso de Marketing era R$ 400. Eu agarrei com unhas e dentes”. O Centro Universitário também proporcionou que suas duas filhas, Nayara Dias, 27 anos, e Uiara Dias, 34, estudassem nos cursos de Design de Moda e Direito, respectivamente, com bolsa integral, motivo de orgulho para o pai. “Eu tenho muito orgulho das minhas filhas por elas estarem estudando, e faço muito esforço para mantê-las aqui. Faculdade é ainda um privilégio”, afirma. Para ele, a educação é a base de tudo. “Ela abre portas, dá liberdade de escolha e de pensamento. Dá para as pessoas a oportunidade de serem independentes, e mostra que existem outros caminhos”.

Atualmente, ele exerce o cargo de técnico de manutenção na Estácio, onde é muito querido pelos alunos, professores e funcionários do Centro Universitário. Há oito anos trabalhando na instituição, já foi homenageado em colações de grau de diversos cursos. O segredo para ser tão benquisto está no amor pelo que faz e na sua humildade. Grato pela vida, ele irá completar 60 anos no dia 18 de agosto.

“Chegar a esta idade sem precisar tomar remédio e tendo disposição para sair é motivo de agradecimento. Tenho muitos amigos e pessoas que gostam de mim”, conta, revelando que ainda pretende trabalhar na Estácio por muitos anos. E tem planos a realizar: “Eu quero voltar a escrever, me dedicar à literatura. Eu queria que as coisas chegassem até as pessoas de onde eu vim. Eu já fui faxineiro, fui lavrador, boiadeiro, trabalhei em construção civil, fui boia-fria, trabalhei na roça, fui catador de latinha. Nós sentimos na pele o quanto é importante ter alguém para nos inspirar. Meu sonho é que minha história chegue a estas pessoas e mostre a elas que dá para mudar e crescer na vida”.



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