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No encontro dos tempos


A cruz é o encontro dos tempos, morte e ressurreição, hoje e nunca. *

ERA SEMPRE em novembro. Mamãe e a gente, caminhando entre outras pessoas, íamos em direção ao vovô, que continuava ali, rodeado de vizinhos, silencioso. Fosse de manhã, fosse à tardinha, era sagrada essa visita, um ritual solene que fazíamos todos os anos. E lá ficávamos em silêncio, ouvindo alguma história antiga, ou se distraindo à toa.

Pra nós crianças, aquilo era mais um desses tantos compromissos da vida adulta que jamais entenderíamos, mas que testemunhávamos com muito respeito e reverência. Através das histórias, conhecíamos um passado também nosso, que até nos agradava, mas o significado de estarmos ali, naquele dia, nós crianças, era um mistério inominável, um futuro que não conseguíamos assimilar.

O tempo passou, e as visitas foram se esparsando. Adolescentes não têm mais tempo para isso, já conhecem o lugar, sabem o que vão encontrar e ouvir; deixaram de perceber as sutilezas, de se encantar com tantos nomes e datas desconhecidos. É uma pena. Enquanto eles passam anos procurando emoções estrangeiras, histórias e ritmos de outros lugares, dentro de si há um profundo vazio sem resposta, que ecoa pelos escaninhos de sua existência lamuriosa. E a seu lado, em sua cidade, há uma Babilônia de histórias, de povos e línguas, tão mais fascinantes que os enredos de outra gente.

Envelheci, mas guardei um profundo encanto pelo lugar onde visitava meu avô. Dele, não tenho mais tantas lembranças, mas daqueles encontros, sim. Hoje eu já não poderia repetir a experiência, não está mais aqui aquela que me acompanhava nas visitas ao vovô, junto com mamãe. Hoje eu também a visito, onde ela agora descansa. Então, de uns tempos pra cá, me ocorreu que eu deveria voltar àquele lugar e sentir um pouco de sua energia, talvez para relembrar aqueles tempos, talvez para ouvir agora outras histórias, de outras pessoas, de outras eras.

Passei anos com essa ideia na cabeça – como toda ideia, se a gente não a põe em prática, ela logo envelhece –, até que, só depois de muito tempo, hoje, por acaso, pedalando num domingo, me deu de finalmente pôr os pés de novo ali. Fui acompanhado. Minha esposa, minha filhinha e eu. Era como se fosse antigamente, mamãe, minha irmã e eu. Passado, presente e… Ali não são todos que gostam de pensar neste outro tempo. Mas foi lá que tudo aconteceu e eu registro aqui.

Tantos nomes. Tantas datas. Tantos rostos. Estarão esquecidos? Aquele lugar já tem quase um século, mas seus habitantes são mais velhos. As habitações são as mais diversas, o cuidado com que são tratadas, também. Há para todos os gostos, apesar de lá imperar um certo ar antigo e clássico, afinal já passa de décadas as primeiras moradias. As construções são dos mais distintos materiais, alvenaria, mármore, granito, barro etc. De todos os tamanhos, rente ao chão, pequena, média, grande e até os imponentes mausoléus. As cores também são várias, porém, o verde impera, grassa atrevido por todos os becos e chega a dificultar a travessia. Sinal do abandono, que lá é democrático e imperdoável.

Minha primeira visita, depois de anos, não foi tão curta. Deu pra perambular por muitos cantos. Procurei o lugar do meu avô, mas não o encontrei. Ainda encontro outra vez. Como não lembrava de outras habitações, fui andando e lendo os nomes, as datas… Cesário Gonçalves, 1961. Cleonice Melo, 2019. Franciso Vieira, 1950. Alzira Ferreira, 1999. Maria de Lourdes, 1998. Jacó Pereira, 1975. Enedina Sales, 1992. Nádia Mendes, 2012. Clea Nundes, 1970. Lina de Resende, 1986. Florindo de Castro, 1970. Salustiano de Melo, 1979. Marciano Felix, 1976.

Alguns, famosos na cidade: Judith Alves Santana, 1988; Nídia Assunção, 2006; Guainumbi Cordeiro, 2013. Outros, registrados no anonimato carcomido do tempo, ilegíveis. Alguns homenageados por pais, outros por filhos, e ainda alguns, por irmãos. Anjinhos (Lauro Américo de Rezende, 7 anos), velhos, jovens. Crianças. Silmara Rezende Melo, 1993, 11 anos. Mirei seu rosto. O que ele me dizia? Criança alegre, tímida, de poucas palavras, mas suficientes para sorverem uma vida breve. Que sonhos terão fomentado? Ainda volto, Silmara, pra te fitar e te ouvir.

Hoje tudo é silêncio. Naquele museu de almas, limbo da eternidade, inscrito em placas de pedra e metal, corroído pelo tempo e pelos matos, vejo que o passado sempre torna a desposar o presente, lembrando que o futuro é inexorável. Por mais que os vivos teimem em esquecê-lo.

Fui lá à procura de um tema, que me levasse a redescobrir a minha cidade, que me levasse a comungar do mesmo mistério que ressoa por esses campos, por essas árvores, por essas ruas, por essas histórias piripirienses. Mas lá descubro que o mistério é mais profundo. Ele fala do encontro dos tempos. Ele clama “Ouça-me!”. Eu, mudo, obedeço.

Renê de Campos, ao meio-dia de domingo, 15 de março de 2020.

*Foto: tumba de Francisco Vieira de Melo, 1950. Nela, a incrição “Oferta de sua esposa”.

3 respostas em “No encontro dos tempos”

Lembrei das histórias contadas do meu avô, que na mata morava uma criatura mística que quando caçava podia-se ouvir seu assobio. O pai da mata estava presente em suas lembranças, conta que um dia chegou a ver tal criatura com fogo no lugar da cabeça. Ele suspeitava que um amigo que nunca regressou de uma caçada tenha sido levado por essa criatura. O encantamento, a passagem do tempo e a história guardadas nas lembranças e agora nas lápides nos lembram que a vida é essa troca de presença e revivida na lembrança. Recordar é viver?

Gostei muito da história professor,me fez refletir bastante,quando tudo isso acabar e houver outra visita no dia de finados,prestarei mais atenção,há tantas lembranças,histórias,coisas que deveriam ser observadas mais atentamente.

Essa história realmente faz a gente refletir sobre a vida professor, como você fala, tantos nomes e datas, de pessoas q tinham vida diferentes e família, acho que esquecidas elas nunca serão. Quando tudo isso passar e assim que nosso dia a dia volte ao normal, me atentarei mais nessas visitas no dia dos finados.

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