As cento e uma primaveras

O riso da eternidade.

Há duas formas de enxergar a velhice. A primeira, pelo número de anos e a experiência advinda com eles. A segunda, pela extensão com que a memória alcança o passado, com todas as suas nuanças.

Por ambos os ângulos a vida de Dona Eliza é admirável.

“Eu nasci num lugar chamado ‘Campo Alegre’, no interior de Pedro II, passei lá dez anos, depois fui para o Sertão de Dentro e lá foram mais dez anos, depois os Cupins, quarenta anos, aí, vim pra cá, e já se foram outros tantos.”

Sessenta e sete anos anos de casamento. Quatorze filhos criados, mais quatro anjinhos. Trinta e um netos, vinte e oito bisnetos. Sem falar nos tantos afilhados e sobrinhos, genros e noras.

Junho é um mês festivo no sertão, com seus santos, fogueiras e festas, com as derradeiras chuvas já deixando saudade, e com as flores silvestres, cheirosas e formosas, com as flores do ipê rosa ou ainda com algum cajueiro precipitado exalando seus cheiros de flores e frutos. É a primavera fugaz dessa terra inclemente. Foi no último dia desse mês ameno que Eliza nasceu. O mundo inteiro celebrava o fim da Primeira Guerra Mundial, naquele mês.

Mas o que saberia de guerra, e daquelas lonjuras, uma moça que, por ser corpuda, tinha que aturar comentários desse tipo: “Compadre, a Eliza tomou foi leite de cabra, foi?” Seus assuntos e venetas eram muito mais importantes.

Hoje, arrasta o seu corpo largo com dificuldade, caminhando devagar, com a ajuda de cadeiras ou paredes. Cada passo parece carregar consigo o peso de décadas. O seu cabelo curto, sempre negro e penteado para trás, ainda guarda o mesmo formato de sua juventude, quando conheceu Francisco.

Naquele tempo, pouca gente ensinava, pouca gente aprendia. Mas Eliza teve sorte, estudou com um dos grandes mestres do passado, neto do Padre Freitas, Raimundo Francisco de Sales, já com os seus setenta e poucos anos. Esse velhinho tinha um neto, também Francisco, que vinha de longe para estudar e, por que não, se divertir no Sertão de Dentro. Foi ali que se conheceram. No entanto, aquela história parecia não dar em nada. Eliza, de repente, se vê prometida de casamento, com nome botado na Igreja e tudo, faltavam oito dias. E o noivo era primo de Francisco.

Às vésperas do casório, Eliza embirra. Não quer mais, e rompe. Seu pai, Cosme, parece não fazer questão e aceita a decisão da filha. Pouco tempo depois, a jovem vem a se casar com aquele rapaz bonito, sério mas cheio de prosa, já com muitas responsabilidades nas costas.

Era a sua vigésima primavera, e o mundo e os seus homens mais uma vez entravam em guerra. Porque não conheciam a felicidade que morava logo ali, nos Cupins.

Naquele povoado, embebido pelo rio Piracuruca e pelo riacho dos Pacíficos, a fortuna tinha duas fontes. Uma natural, a carnaúba. A outra, demasiado humana, o trabalho. Com essas duas, aquele jovem, doravante Chiquinho Dondom, criaria toda sua família e ajudaria a criar a de tantos outros, irmãos e sobrinhos inclusive. Compraria terras, a perder de vista, gado, criações, porcos, aves etc. Mas sempre com a humildade bíblica de um marceneiro, responsável por construir com as próprias mãos a sua casa, erguer pontes, currais, e fabricar móveis.

Partejar. Dos engenhos humanos, poucos estão à altura deste ato. Apenas as mulheres o conhecem. E raríssimas são aquelas que o conhecem dezoito vezes. Era na época das matriarcas. Eliza, talvez, seja a última. Mas diante de tanta dor, havia os seus momentos de conforto. “Depois do parto, sempre tinha uma cachacinha; eu mesmo tomei umas vezes”, conta seu segundo filho, que teve a honra de ver o nascimento de tantos irmãos. “Eu tava no rio quando o foguete anunciou mais um!”

Antônio, Manoel, Maria das Neves, Enedina, José, Maria José, Raimundo, Isael, Maria do Socorro, Deusdedith, Joana, Maria dos Remédios, Lúcia, Maria Gilda. Além dos quatro anjinhos, outros quatro filhos de criação: Raimundo Nonato, Ernesto Pereira, Francisco das Chagas e Hilda do Nascimento. Compensação divina.

Zeloso pela educação de sua prole, Chiquinho contrataria professores para ensinar aos seus e a quem quisesse aprender. Com o tempo, aquele casarão de paredes largas de adobe se veria diminuir. Os jovens, afoitos, partiriam à rua, para continuar aprendendo e seguirem na vida. Com o tempo, viajariam para mais longe, com o tempo, dariam os primeiros netos.

Na sua primavera de número cinquenta, aqueles danados dos homens pisavam na Lua. Mas quem queria saber disso, meu deus, se ali, nos Cupins, já estavam todos os seus quatorze filhos bem criados e alimentados? Quem deles, até, naquelas noites frias, contemplava a Lua e pensava, não em astronautas, mas sim no primeiro amor?

Amor que arrebata e que muito faz sofrer.

Eram gêmeas, duas Marias: uma, de Nazaré; a outra, de José. A primeira seria um anjinho do céu. A segunda, partiria anos depois à procura da irmã, deixando sua filha recém-nascida aos cuidados da mãe Eliza e da irmã, outra Maria, das Neves. Agora seria irmã, filha e mãe, Maria no céu.

Finalmente, é chegada a hora da grande mudança. Com todos os filhos já na cidade, aquele casal de velhinhos se viu forçado a acompanhá-los. A lida rural havia se encerrado; agora, quando viessem à sua saudosa terra seria para matar a saudade daqueles campos e serras. O curso da vida nunca para, apenas arrefece para de novo se acelerar.

O rio Piracuruca, por tanto tempo fonte de vida e abundância para Chiquinho e Eliza, ainda iria dar dois sustos nesse casal.

O primeiro, seria no ano de 1985. O inverno foi generoso, os riachos todos cheios, numa noite de intensas chuvas, muita água desceu das serras, a passagem da água foi interrompida na rodagem. O rio subiu. O casarão, construído há várias décadas, e regaço de tantas histórias, foi à ruína em uma noite. Poucas daquelas paredes enormes, daquelas várias portas e janelas, do engenho laborioso de seu Chiquinho Dondom, permaneceriam em pé. Hoje, quem passa pela nova rodagem, vê no lugar daquela antiga casa apenas um carnaubal com jovens árvores. Mais afastado, um pé de cajá, enorme, uma frondosa testemunha dos tempos corridos. A lembrança dessa casa é bem isto: um tesouro raro, no coração daqueles que viveram e estiveram ali.

Chiquinho e Eliza, no entanto, sempre serenos, voltariam ainda de novo e de novo às suas terras, sempre de passagem, agora em nova casa. Ali, os netos mais novos conheceriam a terra de seus pais e avós, e se apaixonariam por aquele torrãozinho de chão tão precioso, cujo nome não poderia guardar uma memória mais afetiva, e que seria eternamente sinônimo de interior: os Cupins.

“Eu vou pros Cupins, passar férias.” “Eu quero um dia morar nos Cupins.” “Um dia vou ter uma fazenda nos Cupins.” Cupins. Cupins! Cupins… Há muitos cupinzeiros nos Cupins, e cajueiros, e cabeças de bode, e avoantes, e bois e vacas, e carneiros e cabras, galos e galinhas, cupidos e corrupiões, canários e sabiás, rolinhas fofinhas e onças perigosas. Histórias de almas, de caçadas e de pescarias, leilões nos festejos, judas nas semanas santas, missas na capela. O cheiro do sereno ali é único; acordar com o canto dos pássaros e com o sol ainda saindo do horizonte é de refrescar a alma. Ver um gigantesco céu estrelado, só nos Cupins! Lá se aprende não só a história dos nossos pais e avós, lá se aprende o que é a Vida.

A vida que nunca deixa de aprontar das suas. O segundo e derradeiro encontro do rio Piracuruca com Chiquinho e Eliza seria em mais um forte inverno, em 2005. Dessa vez, os dois estavam de férias nos Cupins, e foram pegos de surpresa pelas fortes chuvas. O rio tomou corpo, bebeu chuvas e chuvas, bebeu até da barragem e, então, cobriu a rodagem, cobriu as árvores, fez nadar os bichos terrestres e matou outros tantos que não o fizeram. Pois esse casal de velhinhos corajosos (ou afoitos?) decidiu cruzar a enchente, no trecho onde havia a rodagem. Seu filho caçula veio de Piripiri e com a ajuda de outros dois homens levou seus pais numa canoa. Por uns bons trinta minutos aquele casal singrava o sertão que havia virado mar, tranquilos como num passeio casual. No percurso, avistavam cobras e outros bichos atrepados em postes ou árvores. Zombeteiro, o velhinho dizia, enfiando a bengala na água “Tá fundo hein? Tá fundo…”

Eram os últimos dias dele. Em menos de um ano, dormindo, Chiquinho deixaria Eliza. No cemitério, despedindo-se de seu companheiro de uma vida, eu veria minha avó chorando pela primeira vez.

Desde então, ela passou a ocupar o lugar mais importante daquela calçada, onde se reúne sua família todas as noites: sentada naquela cadeira na quina da sua casa, como meu avô ficava, rodeado de filhos.

São muitas as primaveras, cada uma trazendo um frescor renovado ou mesmo um mormaço de verão. Mas o que importa mesmo são os dias, um atrás do outro. E Eliza, aqui, esbanja sabedoria. Como ninguém, sabe apreciar cada momento do seu cotidiano. Ainda manda na cozinha, dá ordens, corta e prepara refeições, costura uma boa parte do dia, assiste a suas missas, faz questão de dormir sozinha e adora receber presentes. Importa-se com a vida de todos, do seu jeito carinhoso e discreto. Sorri com a delicadeza de uma santa em carne e osso. Contempla o tempo com a paciência de quem viveu um século e sabe buscar memórias de várias gerações.

Viveu o suficiente para ver todos os seus rebentos dando os seus próprios frutos. Mas viveu o suficiente também para ver partir alguns deles. Duas filhas, a Maria José, e a Maria dos Remédios, também avó, mãe e tia querida. Dois netos: Mário, o Mariola, e Hananda, a Nandinha, minha irmã.

Perguntada sobre qual o segredo para tanta leveza e vitalidade, Eliza responde: “A gente não pode se preocupar, paciência, temos que enfrentar tanto as coisas boas como as ruins, da mesma forma”. E sorri, como senhora da bem-aventurança.

Minha avó, hoje, intera a sua centésima primeira primavera. Se o número cem representa um ideal de completude, cem mais um representa o quê? O infinito, além do qual cada dia, cada hora, cada instante é pouco, é muito, é tudo.

A minha avó viveu o bastante para presenciar grandes “eventos” históricos. Nasceu na época da gripe espanhola e hoje, no fim de sua vida, ainda enfrenta mais uma peste. Chateada com os incômodos “Esse negócio de usar máscara é muito ruim, meu filho”. Ela vencerá. Ela já venceu. Mais do que tudo, ela me ensinou, e continua ensinando, que a nossa vida íntima e concreta é muito mais real e importante que qualquer acontecimento público, externo.

Antes de casar com meu avô, Eliza escutou de seu pai uma frase, que me confidenciou ontem “Minha filha, se ficar com o Francisco, você não vai se chamar Eliza, vai se chamar Dona Eliza”.

Essa frase vai continuar ecoando por mais outro século. Ah, se vai.

Renê de Campos, na centésima primeira primavera de Dona Eliza.

3 comentários em “As cento e uma primaveras

  • 30 de junho de 2020 em 20:36
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    Que vida! Que Exemplo e Que Amor!

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  • 30 de junho de 2020 em 21:14
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    Parabéns pela bonita história da vida de Dona Eliza.Certa vez ela me contou a história das enchentes,com muita clareza e exatidão. Que Dona Elisa fique mais anos com essa lucidez,para alegria da familia.
    Viva a vida!

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    • 4 de julho de 2020 em 14:19
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      Um exemplo de vivacidade é as 101 primavera dessa guerreira. Eu cresci na avenida Tomaz Rebelo e sempre vendo este arcenal de vida de Tia Elisa. Não faz muito tempo, conversava com o Zé Maria, seu filho que me dizia das proezas que ela ainda faz. Uma benção para toda a família, amigos. Parabéns tia Elisa. Deus abençoe suas 101 primaveras. Bjos

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