O busto solitário

Mesmo sob o anonimato e abandono, ela ri*

Um gavião-carijó pia continuamente, duas rolinhas caminham apressadas à cata de alimentos, uma borboleta cor de cobre sobrevoa um círculo de pedras, um bem-te-vi canta do alto dum ipê, pardais chilreiam em todas as direções, as árvores farfalham incessantemente despojando-se de suas folhas secas, que caem num movimento flutuante, um sol dominical confere tons doirados às folhas verdes, enquanto uma lua minguante forma um quadro bonito no céu, em cima duma árvore aveludada por florzinhas brancas. Será por tudo isso que ela não para de sorrir?

Por outro lado, a praça onde ri a estátua não é lá motivo de fazer rir as outras estátuas vivas. Cinco balanços de madeira estão bastante danificados, três sem o teto que formava uma casinha para brincar-se atrepado e escorregar, os outros dois, encostados no chão, não balançam mais. Crianças ainda insistem em vir. Por que não viriam? Elas preferem ver a alegria colorida do parquinho a ver o abandono uniforme que a tudo cerca.

Há cinco mesas cúbicas de concreto com tabuleiros de damas, acompanhadas por banquinhos cilíndricos, também de concreto, todos afixados no chão. No mesmo local já houve outras mesas, mas foram arrancadas – eram delicadas demais para o arroubo de seus frequentadores noturnos. Há vários bancos, alguns de madeira, já reformados; e outros de concreto, estes no início tinham o assento de granito, mas também não resistiram à ferocidade dos gatunos.

Bancos e mesas ficam espalhados em torno de um enorme coreto, onde há quase uma década vi pela primeira vez o espetáculo natural de um tapete perfumado, formado por flores, com abelhas trafegando à procura de néctar. O nome da árvore: pau-mocó. Foi ali que a conheci, e todos os anos, por essa época, aguardo para vê-la florida**. Mas o coreto, que um dia foi belo e fazia sonhar, hoje está desbotado, enferrujado, despedaçando-se, e nem as duas lâmpadas do centro o iluminam durante a noite. Há postes de luz bem dispostos na praça, mas nem todos funcionam e já houve épocas sucessivas de escuridão profunda.

Olho mais uma vez para ela e continua sorridente. Na última semana, haviam arrancado duas pedras de granito de sua base; domingo passado estive aqui e me revoltei com o ocorrido. Mas restavam as outras duas, numa das quais se encontrava a placa que nos informava de quem era aquele busto risonho. Ontem, sábado, 11 de julho, estive novamente visitando a praça, e para minha tristeza haviam terminado de arrancar as outras duas pedras, dessa vez com o nome junto.

Perguntei a duas pessoas se sabiam de quem era aquele busto. A primeira: “Não, não sei”. A segunda, apenas balançou a cabeça, fazendo um bico de indiferença. Outra mulher que a acompanhava brincou: “A gente costuma dizer que é a Dilma”.

Não é bastante não ser cego para ver… assim falava mestre Caeiro. Por que tanta gente vem a esta praça e não reconhece esse busto? Aposto que há pessoas que sequer deram por ele na praça. Nem o busto nem a gigantesca letra N que se encontra mais adiante.

Afinal, a quem pertence o busto solitário? Não recordo muito bem quando descobri o seu nome; no início não me interessava saber quem tinha sido aquela senhora, se ainda estava viva ou não, se era piripiriense ou não. Devia ser. Para mim, esta praça tinha um valor tão íntimo e especial, que preferia guardá-la sozinha comigo. Por isso, gostava de chamá-la Praça das Folhas Caídas, ou Praça Outonal. Gostava de vir aqui e ficar no coreto em fins de tarde, em devaneios: então era Praça dos Sonhos. Nisso, até a localização ajudava, à beira da estrada, logo, era Praça da Fronteira.

Mas aquele busto sempre me fazia companhia, até que me interessei por ele. Vou até a placa e descubro. Chama-se Nídia. Nídia de Assunção Aguiar. Juíza, desembargadora do Tribunal Regional do Trabalho do Rio de Janeiro. Nasceu em Piripiri, em 14 de dezembro de 1942, cresceu aqui e em seguida foi para o Rio, onde fez sua vida. E eu, que sempre mantive certa antipatia por algumas autoridades, ainda mais quando eram militares ou governantes imortalizados em praças públicas (qual mensagem eles querem dar às massas?), com Nídia pude sentir certa simpatia, até um carinho.

Outros bustos são sempre sérios, solenes, meditabundos. Nídia não, ela tem um sorriso expansivo, que contagia. Em vida era assim, percebo em fotografias. Hoje, Nídia dá nome não só à praça, mas também à Vara do Trabalho de Piripiri e à sua Biblioteca, cujos livros foram da própria. Já li alguns. A Biblioteca também realiza anualmente um concurso literário, com crianças das escolas do município. Só isso não seria motivo de graça póstuma à sua memória?

Num ano em que estátuas do mundo inteiro têm o seu valor contestado, muitas delas de escravocratas, racistas e facínoras, Piripiri, que se orgulha de suas imagens de santos e santas abençoando ruas e praças, esquece-se do seu único busto, um busto feminino de alguém que, mesmo distante, sempre amou sua cidade natal.

Esta praça, desconfio, deve ter tido o dedo de seus familiares. Na idealização e na construção, em 2007, que contava inclusive com um relógio de Sol – já desaparecido –, e, necessariamente, na reforma posterior, depois de alguns anos de descuido. No início, havia plantas com flores, um gramado vistoso, crianças brincando em balanços e escorregas, bonitos e seguros, quiosques (logo depredados) e até uma guitarra de alumínio no início da praça, que contava também com uma pista de skate, que ainda sobrevive à míngua, como tudo aqui.

Para uma praça que ficava numa das entradas da cidade, em frente à única universidade pública de Piripiri, a UESPI, orgulho e beleza maior não poderia haver.

Mas neste rincão onde a cidadania viceja só em épocas especiais, não se mantendo diariamente pela ação dos seus cidadãos zelando pelo espaço público, muito menos pelos figurões, mais preocupados em festejar (re)inaugurações, a única beleza que pode resistir é a sertaneja: pés de ipê, de pau-mocó, de flamboaiã, de agave e tantos outros. Eles, com suas folhas secas e flores sazonais, na companhia constante das aves, são os únicos que investem alegria e beleza à praça onde ri o busto solitário.

Quantas cidades têm a sorte de contar com um busto feminino que ri?

Mais importante. Quantas cidades animam de tal maneira seus cidadãos, que estes quando crianças já imaginam o descanso eterno no ventre natural onde nasceram?

Piripiri teve essa ventura. A adolescente Nídia, em 1956, aos treze anos, e ainda com cinquenta pela frente, escreveu este poema***, que batizou com o nome de sua cidade:

  • Oh! Como eu amo, com amor ardente,
  • A minha terra, a terra em que nasci,
  • Em cujo solo alegre e sorridente
  • A minha infância feliz então vivi.
  • Suas verdes matas que, no horizonte,
  • Surgem alegres e bem altaneiras,
  • Relembram a seus filhos, a todo instante,
  • Que ela pertence à Pátria brasileira!
  • Sobre o seu solo correm deslizantes,
  • A cantar o encanto que esta terra tem,
  • As suas fontes, com vozes murmurantes,
  • Que, entoando, cantam pelas estradas além.
  • E esta terra, rincão desconhecido,
  • É Piripiri, a terra em que nasci,
  • É ela o berço natal de minha vida,
  • É ela a cidade em que sempre vivi.
  • Distante dela eu peço ao bom Deus
  • Que, quando a morte a vida me ceifar,
  • Sob o seu solo faça o ataúde meu,
  • Para que sempre o tenha a me abraçar.

Nídia faleceu no Rio de Janeiro, em 08 de agosto de 2006, tendo seu desejo atendido. Hoje descansa na sua terra materna.

Que a Piripiri, que acolheu e encantou a menina Nídia, possa também cuidar da sua memória e da sua praça, para que outras tantas jovens almas queiram fazer desta cidade o seu lar de jazigo e de Vida.

Renê de Campos, na companhia do busto,

11h da manhã, 12 de julho de 2020.

* A placa arrancada dizia:

Piripiri orgulha-se dessa sua filha, magistrada íntegra, séria, inteligente e culta, além de mulher tenaz, destemida e lutadora, que honrou a magistratura, dignificou a mulher e engrandeceu o Piauí.

– Piripiri, 30 de junho de 2007.

** Ainda dá tempo: visite a praça de Nídia e veja a árvore aveludada e o tapete perfumado.

*** É a sua amiga de juventude, Cléa Rezende, quem cita o poema, no seu livro Piripiri à sombra de buganvílias e madressilvas.

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