Terra de motoqueiros

Uma pacata cidadezinha do interior da Califórnia é invadida por uma gangue de motoqueiros. Jaquetas negras de couro, calças jeans, óculos escuros e boinas na cabeça. O ano, 1953. Eles, homens feitos, vindos do conflito brutal da Segunda Guerra. Andavam soltos pela estrada afora, à procura de aventuras, mulheres, encrencas ou só de uma plateia a que pudessem se afirmar em sua masculinidade grupal. Um Marlon Brandon de 29 anos é o líder desses destemidos novos caubóis em O selvagem, o primeiro filme a tratar de um fenômeno bem recente da vida urbana de então: homens sobre duas rodas.

O tom geral da história é de denúncia. Cidadãos simples de repente veem sua pequena cidade invadida por homens briguentos e brincalhões, fazendo piruetas em suas motocicletas e adentrando bares, cortejando jovens garotas e provocando o caos no modesto trânsito das ruas. A confusão está instalada. Até que acontece o (in)evitável. Esta é uma história chocante. Poderia nunca acontecer nas cidades americanas… Mas aconteceu nesta. É um desafio público não deixá-la acontecer de novo. São as frases que abrem o filme, logo cortadas pelo estrondo das motos rompendo a estrada.

Um fetiche antigo. Uma masculinidade à procura de afirmação.

Difícil não lembrar desse filme toda vez que vejo ou ouço algum motoqueiro rasgando o frágil silêncio das horas ou o tênue vazio das pistas de Piripiri. E claro, estou sendo eufemista. Porque o que acontece é bem outra coisa.

Aqui são os próprios cidadãos que trafegam incessantemente em suas motos em busca de uma inefável recompensa – sempre adiada. É o que penso, quando vejo um motoqueiro cruzando carros, outras motos, bicicletas e pedestres numa busca inopinada por coisa nenhuma.

Miro seus rostos e não vejo uma pessoa, vejo sim uma máscara congelada no tempo com cara de mau. Afinal, pilotar uma moto como eles o fazem exige isto: uma extrema seriedade no rosto, como se quisessem dizer ao mundo que o que fazem é o ápice de suas vidas, um ato único de bravura, heroísmo e virilidade que coube a eles desempenhar com a mais absoluta entrega.

Entrega e sacrifício, com certeza. Porque o risco que assumem ao andar sem capacetes e retrovisores – fazendo o que fazem – só pode ser um suplício que aceitam, a fim de expiar alguma culpa existencial. Sacrifício maior deve ser o infligido aos pobres ouvidos. Adulterar o escapamento das motos parece ser a provação suprema de uma grande epopeia, ao fim da qual se não estiverem mortos, certamente estarão moucos.

Tento ser irônico, mas no fundo o que quero dizer passa longe de reticências.

Penso que fracassamos, enquanto sociedade, em muitos aspectos. No entanto, quando penso no local que os motociclistas passaram a ocupar nas ruas e principalmente em nosso imaginário – para não falar em nossos ouvidos – sinto que há uma ferida supurando todos os dias.

Acontece que permitimos que um modo de vida totalmente esquizofrênico se apoderasse do local mais público de todos: as ruas. Acho que não exagero quando falo em esquizofrenia, porque quando presencio as barbaridades encenadas no trânsito por motoqueiros, vejo que esses jovens ou homens feitos estão bem distantes da realidade do próximo. E no fundo, penso que também estão a milhas de distância de si mesmos, siderados nas lonjuras do seu mundo sem norte.

Falo do trânsito e sei que ele se constitui também por carros, caminhões, carroças, bicicletas e pedestres. Nem por isso, deixa de ser caótico e selvagem o local que constituímos para transitar em nossa cidade. Me atenho aos motoqueiros, porém, porque vejo neles a origem de nossa barbárie diária – e de nossa falta de cidadania. Somos uma cidade sobre motos, destas, desconfio que poucas estão aptas a trafegarem, bem como seus donos. Mesmo assim, não paramos de pôr motos no asfalto.

Se não bastasse, prescindimos dos cuidados básicos: capacetes e retrovisores. Em tempos de peste, é de se espantar que tantos protejam a boca e o nariz mas não a cabeça. Se não bastasse, permitimos que crianças dirijam, que vão à escola motorizadas. Se não bastasse, desrespeitamos as regras mais elementares de trânsito: um sinal pra esquerda ou pra direita, ou o respeito ao sinal vermelho. Se não bastasse, ainda, admitimos dirigir sob o efeito de todas as distrações possíveis: celulares, fones de ouvido, álcool.

E o resultado são os esperados, ano após ano: estresse, raiva, desassossego, acidentes, aflições, vidas interrompidas, subtraídas, e a sensação amarga de que a rua não é de todos, apenas dos brutos.

Escrevo estas linhas e sou interrompido vez ou outra pelo estrídulo raivoso de motoqueiros na avenida. Tem horas que até as paredes tremem, de tanta fúria saída desses escapamentos. Homens, sempre homens, e por que será? Não basta ter o cano da moto ruidoso, é preciso destacá-lo, fazer-se notar, acelerando, acelerando, cadenciando a mão direita no punho, dando palmadinhas, como se tocasse num objeto fálico interdito. Atrás de si, outro falo imenso boceja raivoso pela ação do toque da mão. E o ruído massageia o traseiro, enquanto violenta os ouvidos. Tornar-se homem não é fácil.

Ninguém, no entanto, parece se incomodar, nada é feito. Blitzes são realizadas há anos, mas parece que o único objetivo por trás delas é despejar um pouco de medo – a sensação de poder – sobre uma população que se vê desamparada ou atacada por quem deveria lhe proteger. Porque as autoridades, policiais, prefeito, vereadores (quem mais?), parecem não se incomodar com o real problema gestado há décadas: ninguém foi educado a obedecer às leis de trânsito, de modo que a sociedade como um todo produzisse um ambiente saudável para o tráfego. Blitzes, multas e apreensões mais se assemelham às surras que um pai dá nos filhos quando sente que perdeu autoridade e não soube educá-los. E são assim porque aleatórias, inconstantes e sem qualquer critério.

Estaremos fadados a ser eternamente órfãos de cidadania?

Filhos cujos pais não existem, simbolicamente ou de fato, estamos formando gerações e gerações de jovens que possuem um imaginário pobre, deficiente, e que veem em motos o primeiro objeto de ascensão social, talvez o único. Pelas motos se enxergam iguais aos seus pares, conquistam garotas aqui e acolá, e desafiam o perigo, o que dá algum sentido às suas vidas. Morrem, mas se afirmam ao transgredirem os escassos limites a que estão circunscritos.

E volto ao filme. Em uma cena, uma jovem pergunta ao personagem de Brando: “Johnny, contra o que você está se rebelando?” Ele, pego desprevenido, só consegue dizer: “O que você tem com isso?” E penso nos nossos motoqueiros, contra o que eles tanto aceleram, aceleram e vociferam? Quanta angústia, desespero, medo, insegurança e sentido são silenciados e reprimidos pela velocidade e barulho de suas motos? O que eles têm a dizer?

Pego minha moto e saio na avenida. Acelero e sinto uma súbita emoção de aventura, a velocidade parece me elevar a outros espaços, fujo de todos os olhares acusatórios, sinto uma faísca de liberdade que me diz que posso ir a qualquer lugar, nada me impede, vejo carros novos, SUVs, mulheres… outros homens, e passo por eles com uma total indiferença, afinal, na minha moto, sou apenas eu e a fúria da velocidade, guio sem saber para onde vou, endiabrado para onde esta máquina me carrega, se quebro uma esquina qualquer, acelero e passo à frente de um carro, meu rosto se contrai embriagado pelo vento ou pelo som do escapamento e sou um rei sobre duas rodas e todos se admiram da minha figura e do que eu faço; a cidade, toda ela, é o corpo da mulher em que monto, e eu sou o homem que a doma. Vrom! Vrooooom! Vroooooom! Ah! Oh! Aaahh!

Sim, motos são maravilhosas. Diferente dos carros, em que ficamos limitados, sendo apenas observadores, as motos nos dão uma sensação de realidade única, uma experiência de tempo e espaço fundidos em sucessivas imagens que parece serem tocadas por todo nosso corpo, e ainda por cima um certo senso de risco sem o qual nenhuma aventura é possível. Numa moto, todos os sentidos são atiçados. Nada fica de fora.

Difícil não se encantar por esse canto da sereia. A mesma que todos os anos ceifa a vida de tantos jovens, encantados por essa paixão e cegos dos seus limites, dos seus perigos.

Somos uma cidade que se orgulhava até há pouco tempo de uma data especial: a festa dos motoqueiros. Contamos há décadas com o Clube dos Motoqueiros. Temos uma tradição sobre duas rodas. Todos os anos fazíamos procissões em várias ruas e avenidas sobre motos. Promovíamos espetáculos em que crianças e jovens se encantavam com a vida sobre as rodas. E eles começavam cedo, sobre as rodas de suas bicicletas, imitando seus heróis imaginários. Este o nosso culto à moto. Ruim? Não sei dizer.

Sei que é triste perceber que há quase quarenta anos alguns motoqueiros, hoje sessentões ou mais, ergueram uma tradição até bonita e de repente tudo se tornou uma farsa. Um arremedo de ritual em que jovens encenam o próprio narcisismo para uma plateia indefesa e cansada. Tão impotentes e escassos de possibilidades, resolvemos encerrar o Moto Passeio – que já causava incômodos e mortes anualmente –, mas não conseguimos frear a fúria dos motoqueiros, que agora continuam diariamente a sua saga sem fim, para a tormenta de todos nós, obrigados a ouvi-los.

Ao fim de tudo, o mais desanimador nem é tanto o fato de não conseguirmos barrar o caos instalado pelas motos; mera consequência de um mal maior.

O que entristece é que a cidade não foi capaz de encontrar meios de integrar gerações e gerações de jovens numa comunidade o minimamente coesa. Não há lazer, recreação, passatempos em que tantos jovens pudessem entreter-se em suas horas vagas e sentir algum sentimento de participação e dignidade em suas vidas, tão marginalizadas.

Ouço mais uma vez o cano rasgado de uma moto e saio à janela. Quem está mais enfurecido, eu ou o motoqueiro? De minha parte, sei que apesar dos incômodos sucessivos conheço o meu sossego. Quanto a ele, quanta gasolina terá que ainda queimar do próprio bolso (ou dos pais) até que encontre a redenção final, no próximo ano ou na próxima esquina?

Desconfio que ele não se importa. Em terra de motoqueiros, só o que importa é a embriaguez do agora.

E o agora é a mão no punho e o cano no rabo.

Já não ouço ninguém.

Renê de Campos, 06/09/2020.

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