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gramíneas | a vida à beira-asfalto

gramíneas | a vida à beira-asfalto

Renê de Campos, um peripatético.
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Interlúdio – Peripery à sombra dos capins

Nos resta pouco tempo, nos roubam muito tempo, não há mais tempo. Quem ainda tem tempo? Você, leitor. Sou-lhe grato.

Jamais imaginei que pudesse escrever coisas que interessassem a outras pessoas, ou que teria um jeito de escrever que mantivesse leitores por um bom tempo, como acredito que tem sido. E se você está lendo isso agora é porque tem me acompanhado por esses dois anos.

Ler é cada dia mais raro, e as pessoas têm cada vez menos paciência e interesse em ler textos longos sobre coisas que não são diretamente do seu interesse. Assim, se você tem me lido é porque alguma coisa aconteceu e você quis voltar aqui. Por isso, nesta pausa de hoje, sinto que seria bom conversar com você, amigo ou amiga, e falar do sentido que tenho vivido ao escrever essas crônicas sobre a vida na cidade.

Viver numa cidadezinha pequena pode parecer uma experiência ingrata. Poucas perspectivas, poucas distrações, pouco lazer, poucas pessoas interessantes, pouco dinheiro. Tudo é pouco. Porém, se há algo que sempre me incomodou foi a insistência (também minha) de tanta gente em só enxergar uma cidade, um jeito de viver aqui. Só um tipo de música, um tipo de conversas, um tipo de ambição. A ponto do horizonte de possibilidades ser cada dia mais escasso.

Nisso, os livros sempre me salvaram. Eles me carregam daqui e posso habitar outros mundos menos inóspitos, mais diferentes, prenhes de possibilidades e experiências. (Agora mesmo estou em uma temporada na Tóquio dos anos 70…) O problema é que eu quero também sentir que vivo aqui e que a vida por essas bandas tem o seu quê de sublime. Mas pra poder sentir isso eu não conheço outro recurso disponível que a literatura – de ficção ou não.

Desde que li os raros livros sobre Piripiri – é bom citar os autores, Judith Satana, Cléa Rezende, Fabiano Melo, Antônio Melo, Evonaldo Andrade e até meu tio José Maria de Carvalho –, todos eles relatos do passado, memorialísticos ou historiográficos, fiquei com uma impressão de encantamento pela minha cidade. Como se a vida aqui pudesse ser interessante, porque olhando esse passado através da literatura eu o via bonito. E queria continuar o lendo em novas histórias, histórias que fossem também do presente. Pena que não as encontrava.

Foi então que me veio essa urgência, essa necessidade de escrever. Minha maior inspiração foi um livrinho curto de crônicas-reportagens: A vida que ninguém vê, de Eliane Brum. Em curtas histórias, essa mulher extraordinária consegue mostrar o que há de maravilhoso nas histórias mais banais, mais reles e comezinhas numa cidade qualquer. Eu então me impus a tarefa de tentar algo assim. Sem ser repórter, nem recebendo por isso (senão o seu tempo), tenho tentado ver e escutar a cidade e seus seres, pra que disso eu perceba um lugar em que valha a pena viver, que eu descubra pessoas também com as quais valha a pena dividir os meus dias, os nossos dias.

Tudo começou no início da peste, grande ironia, hein. Sem poder sair tanto de casa, eu quis falar sobre as ruas e pessoas. Por não poder tanto, acabei enveredando por outros caminhos, meio tortuosos mas que têm compensado o esforço.

Hoje, sinto que tenho muita coisa pra contar e quero continuar escrevendo sobre este presente que logo tornar-se-á um distante passado. Quem sabe, daqui a 50 anos, algum piripiriense solitário e triste dê com essas crônicas em alguma esquina da sua vida. É também para essas pessoas que penso escrever. Por isso mesmo, em breve esses textos estarão num livro, para que sejam um retrato vívido de uma época, mas, principalmente, pra que a vida aqui nunca se torne invisível.

E eu continuarei te esperando por essas esquinas da cidade, querida leitora, leitor. Com meu sorriso tímido.

*

Peripery

Desde que descobri que a grafia original do nome da cidade era assim, e que os periperienses relutaram em pôr quatro is na sua cidade, fiquei apaixonado por esse nome. Pra mim, ele me diz muito mais coisas do que o atual. Pra mim ele é verde, viçoso, cheiroso e colorido, assim como a relva. Por isso, eu, Renê de Campos, quero mesmo é viver em Peripery. O outro de mim que viva em Piripiri.

Capins

Os capins andam comigo antes mesmo de pensar em escrever as gramíneas. Nunca me vi à altura de escrever poesia. Eu sou uma pessoa de gestos curtos e rasteiros. Por isso escrevo crônicas. Mas quando descobri os haikais – os poemas zen japoneses – foi impossível não tentar me arriscar neles. Em três versos, com uma métrica regularmente precisa (5-7-5), captar uma experiência no momento real em que ela nos vem aos olhos. Eles estão intrinsecamente ligados ao mundo natural, à passagem das estações, ao tempo. As cenas que se seguem são quase todas de 2019 e algumas de 2020. Espero que você consiga viajar comigo e perceber a cidade por estes ligeiros retratos.

*

nuvens rosadas

pardais que chilreiam

já é dia ou noite?

(agosto, 2019)

*

folha de cobre

grassa no ar

assim floresce o verão

(agosto, 2019)

*

ipê desnudo

suas bagens fálicas fecundam

o ventre árido da terra

(agosto, 2019)

*

sereno noturno

intercalam-se entre os pingos

espanto e deleite

(setembro, 2019)

*

vitral de igreja

miríade de anjos

sob o jugo da cruz

(setembro, 2019)

*

bebê aventureira

cada cantinho da casa

uma odisseia ligeira

(setembro, 2019)

*

casinha ao pé da serra

mais parece ao pé do céu

à sombra de deus

(setembro, 2019)

*

um minuto leva o sol

pra sumir no horizonte

quantos pro último adeus?

(setembro, 2019)

*

anjinhos da praça

sempre espiando nos banquinhos

e achando graça

(setembro, 2019)

*

passeio em setembro

ipês e cajueiros

acenam com flores

(setembro, 2019)

*

flor sem nome

tua beleza não é menor

porque vives só

(setembro, 2019)

*

morro da saudade

aqui, vi passar minha vida

num fim de tarde

(setembro, 2019)

*

cena encantada

veem juntos pai e filhinha

seu primeiro arrebol

(setembro, 2019)

*

o vento sussurra

na noite um mistério que

só as folhas conhecem

(setembro, 2019)

*

tantos sons no meu

quintal, quem dera soubesse

o nome de todos

(setembro, 2019)

*

é questão de olhar

a sombra persegue os seres

em todo lugar

(setembro, 2019)

*

caminha comigo

garota de olhos castanhos

por mais outros sonhos?

(setembro, 2019)

*

ninho vazio

açoitado pelo vento

ninguém volta mais

(setembro, 2019)

*

belezas do agreste

tucuns, macambiras, cactos

brutos também amam

(setembro, 2019)

*

o tamanduá

sonhou cruzar a fronteira

carniça na estrada

(setembro, 2019)

*

ressaca de chuva

pelo vento e pelo frio

noite perfumada

(setembro, 2019)

*

racha a terra bruta

no entanto, há delicadeza

florzinhas no chão

(setembro, 2019)

*

quadro flutuante

copa de flores de ipê

uma no ar desliza

(setembro, 2019)

*

olho insaciável

espio da fechadura

ninguém vê o que eu vejo

(setembro, 2019)

*

lar do joão-de-barro

lá dentro, por quantos ecos

o amor reverbera?

(setembro, 2019)

*

lagarto translúcido

cruza a rua e muda de cor

quem despista, iguana?

(outubro, 2019)

*

capim morre e torna

crescer, no fogo ou no concreto

viver é insistência

(outubro, 2019)

*

parece neblina

fim do dia, fim do fogo

névoa de fuligem

(outubro, 2019)

*

jovem carnaúba

teste de maturidade

batismo de fogo

(outubro, 2019)

*

amantes distantes

porém, um sempre espelha o outro

lua e sol poente

(maio, 2020)

*

viagem noturna

três garças singram a noite

à luz das estrelas

(junho, 2020)

*

o ti-ti-tiziu

canta salta e bate-estaca

à procura do amor

(março, 2021)

*

Renê de Campos, 22 de maio de 2021.

rene.peripery@gmail.com

* Na próxima semana quero voltar com novos retratos, dessa vez, ficcionais. Até lá!

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2 comentários em “Interlúdio – Peripery à sombra dos capins

  • 22 de maio de 2021 em 12:08
    Permalink

    Olá professor bom dia adorei sua crônica mttt lindaaa falando sobre um pouco de piripiri, ameiii! E é sua aluna favorita: A Giovanna kkkk.

    Resposta
  • 25 de maio de 2021 em 10:17
    Permalink

    “capim morre e torna

    crescer, no fogo ou no concreto

    viver é insistência'”

    Bela insistência a sua de continuar a nós fazer ver-sentir a cidade e sua humanidade. Continuidade na luta!

    Resposta

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