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Sexta-feira, 26 de Junho 2026
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Rumos Vários

A mãe, o filho e o santo

a história de uma mãe esquecida

Rumos Vários
Por Rumos Vários
A mãe, o filho e o santo
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MAIO, MÊS DAS MÃES. Segundo domingo de maio, dia das mães. Por coincidência, hoje, o dia em que escrevo. Eu poderia falar de outros assuntos, mas o mês de maio, com sua centralidade tão régia, me fez voltar atrás. Por causa disso, eu gostaria de contar uma história que não saiu da minha cabeça, desde que a descobri. Como a de hoje, ela é mais uma das coincidências da vida. Mas que grande e bela coincidência!

Não sei bem por onde começo essa história. Como diz o título, é a história de uma mãe, de um filho e de um santo. Mas não é bem uma história feliz e edificante sobre o amor de mãe. Na verdade, é a história de uma ausência. Da falta de uma mãe. E do peso, para um filho, de carregar, de nascença, o fardo da orfandade.

Mesmo assim, penso que essa história tem uma moral feliz. Uma espécie de reconciliação entre todos os envolvidos. Pode ser só coincidência, de novo. Mas gosto de imaginar que, no fundo, há alguém sorrindo lá em cima, ou em algum lugar ou época distantes.

O ano era 1884. No fim da tarde do dia 19 de julho, na fazenda Pau D’Arco, um jovem casal tinha o seu primeiro filho. O menino nascia portando o nome escolhido por sua mãe Izabel. Era uma promessa dela, devota de São Benedito, para ter um parto tranquilo. São e salvo nascia o menino, mas sua mãe não resistia.

Daí em diante, até os doze anos, Benedito teria a companhia do pai, Aureliano, e da tia, Carolina, que se casaria com seu pai e lhe daria três irmãos. Depois dos doze anos, porém, morre Aureliano, e o menino Benedito é mandado para Barras. Distante de casa e da família, o jovem Benedito iria aos poucos construir sozinho a própria vida.

Torna-se poeta, jornalista, ilustrador e farmacêutico. Todas estas, formações de um exímio  autodidata. Desde o início em que aparece na imprensa local, assina como B. Freitas. Benedito, assim mesmo por extenso, é um nome que parece pesar em sua vida. Até que publica seu primeiro e único livro de poemas, em 1910, os Sonetos piauienses. Nessa época, já utiliza o nome com o qual passará à posteridade: Baurélio Mangabeira.

De Benedito, promessa de sua mãe, havia ficado apenas o B. Agora suprimido, juntava-se a seu segundo nome e, pronto, Baurélio, um nome vibrante e sonoro. Único, como seu dono.

Sua vida foi marcada pela dor, pelo desamparo, pela humildade e pelas inúmeras errâncias do destino. Poeta boêmio e satírico, foi único no seu tempo em fazer graça das situações mais absurdas. Além de unir humor à propaganda e à ilustração, com suas xilogravuras. Arte que foi um pioneiro e mestre, no Piauí.

Do santo que não socorrera a mãe, durante o parto, Baurélio parecia ter algum ressentimento. Por isso, a recusa em usar o seu nome. Mas a sua irreverência não o impedia de fazer gracejos até com o santo. Como este, escrito em Teresina:

O namoro por ocasião das novenas de S. Benedito está bem adiantado...

Benedito é pretinho,

Nada tem que o desabone...

Não queiram, pois, coitadinho!

Fazer do santo... trombone!

Em Piripiri, o santo preto também presidira por muito tempo um dos mais importantes festejos da região. Realizados em setembro, numa das capelinhas mais antigas e bem localizadas da cidade, no topo do Morro da Saudade. Desde o início do século passado até a década de 60, os festejos de São Benedito eram umas das grandes e animadas festas religiosas. Mas por volta de 1967, a capela foi abruptamente demolida, e o santo ficou sem um templo para chamar de seu. Sua imagem ficou guardada por muito tempo, sem ser festejada.

Até que em 1999, o santo ganhava um novo lar. Dessa vez, um lar definitivo. Era no bairro Estação. O bairro que tem seu nome em função da Estação de Trem, inaugurada em 1937. O ano em que Baurélio Mangabeira morria. O mesmo bairro em que o poeta nascera, em 1884. A fazenda Pau D’Arco, de seus pais, ficava localizada justamente ali. Nas cercanias onde agora reside o santo preto.

Hoje, os festejos do santo têm nova data. São realizados em novembro, entre os dias 04 e 14. Ali, debaixo de um frondoso cajueiro, os fiéis e devotos de São Benedito se reúnem em tardes e noites animadas, no amplo adro da capela.

O santo, nas imagens que o representam, costuma carregar uma criança e um cesto de pães. A criança é o Menino Jesus, com quem Benedito era visto conversando em suas visões. Os pães são uma referência aos milagres associados ao santo: o poder da multiplicação dos alimentos, a cura dos doentes e até a ressurreição de crianças.

Medito sobre o santo. Medito sobre a sua história e a sua devoção. E volto ao passado.

Naquele longínquo mês de julho de 1884. O que levava aquela mãe a pôr no santo a sua mais extremada fé? Seria um pressentimento do pior? Seria um forte desejo de agradar ao santo com o seu rebento, um menino de nome Benedito? Ou seria, ainda, a fé de que seu filho cresceria com saúde e bem alimentado?

O destino do menino Benedito Aurélio de Freitas não foi dos mais felizes, mas foi um grande destino. Morreu aos 53 anos, em Teresina, deixando uma esposa e três filhos. Logo em seguida, sua esposa também morria, e seus filhos seriam criados em Piripiri. Dois deles chegariam aos 90 anos. Um dos dois, ainda é vivo.

É difícil alcançar tantas lacunas numa história como essa. A mãe Izabel morrendo no parto com uma promessa. Seu filho órfão no futuro também deixando seus filhos órfãos. E um santo protetor de crianças, com um menino no colo. Onde encontrar um sentido? Talvez não haja.

Mas gosto de pensar que aquela Izabel – a mãe que morreu pelo filho – estaria feliz de ver a sua família de pé e muito viva. De ver o seu filho ainda lembrado. E, finalmente, de saber que, próximo ao lugar em que deu à luz o seu único filho, foi erguido um templo em homenagem ao santo de sua devoção.

Em nome dessa Mãe quase esquecida, eu saúdo hoje todas as mães de Piripiri. E em nome de seu filho, Benedito, e do santo que o consagrou, também Benedito.

Diego Renê

*

A seção Rumos Vários é sempre publicada aos domingos, a cada duas semanas. A ilustração é da minha filha, Celina Yukie.

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