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Sexta-feira, 12 de Junho 2026
Rumos Vários

Diário de classe

A vida ao rés da escola

Rumos Vários
Por Rumos Vários
Diário de classe
Celina Yukie
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Sexta-feira, 15 de maio de 2026, última aula da semana, na turma do 8º ano C. Vou falar sobre a crônica e a sua relação com a vida concreta. Começo com uma pergunta. O que é mais interessante, uma vida comum ou uma vida extraordinária? A vida como ela é ou a fantasia de outras vidas? A minha intenção é destacar o valor da fantasia, claro, mas apontar especialmente para a vida cotidiana, essa de todas as horas, que costuma ser revelada pela boa crônica.

Mas então, uma série de coisas acontecem. O som alto de uma festa ao lado, alguns alunos precisam sair para participar do ensaio da quadrilha, outros chegam agitados por uma fase da Olimpíada de História, as conversas não param, e, afinal, é sexta-feira. A crônica se perdeu no meio da vida concreta.

Em outra escola – esta, de tempo integral –, estou na turma do 7º ano, falando de tempos verbais. Copiei no quadro inteiro alguns conceitos e exemplos de frases. Começo a explicar. Retomo uma noção simples de verbo. A palavra que expressa uma ação no tempo. Um aluno levanta a mão. “Professor, posso ir no banheiro?” Digo que sim. Outro também levanta a mão. “Depois dele, eu posso ir?” Pode... Esses alunos chegam à escola às 7 da manhã e ficam aqui até às 15h40. Não se banham, nem dormem após o almoço.

No intervalo, nós professores desabafamos. Quem vem pra Festa das Mães? A Feira de Ciências é na próxima semana, até lá os professores de ciência não dormem. Os ensaios da quadrilha vão começar, dessa vez vai ser o professor de educação física quem vai perder sono. A OBA vai ser aplicada em qual horário? A Olimpíada de Português também é semana que vem, preciso reforçar as revisões. Além de tudo, concluir os conteúdos do mês, que a prova está chegando. Quem tá faltando contribuir com o brinde das mães, e o da feira, e o da quadrilha? Sábado já é letivo outra vez? Como você foi na prova do concurso? E o teste seletivo, quando sai? E sua mãe no hospital? Soube do professor que morreu na estrada voltando pra casa? Trabalhei com ele por 4 anos. O sino toca, ninguém nota. Ali, qualquer minuto a mais é um grande descanso.

A sala de aula, afinal, muitas vezes, não passa de um não-lugar. Para alunos e professores. Um local em que adentramos para não estar. Um lugar que, por razões complexas, históricas e, na maior parte das vezes, absurdas, carece do básico para cumprir sua função: sentido.

É difícil encontrar o tom justo para falar da vida na escola. Não há dúvida de que é na escola que se ganha ou se perde um país. Na Educação Básica, deveriam estar todos os nossos esforços para construir um país melhor. Mas a realidade da vida de professores e alunos, a despeito do que querem gestores e técnicos, é bem outra.

Todos estão cada vez mais cansados. Não só dos estímulos da era das telas. Mas de tantos discursos variados e contraditórios sobre o que é ou deveria ser a educação. Os alunos não entendem por que devem aprender isso ou aquilo, se a vida deles é tão diferente e alguns conteúdos parecem ser de outro planeta. Ao mesmo tempo, são obrigados a fazer uma prova mensal para provar que sabem. E no entanto, sabem bem de uma coisa: dificilmente reprovarão, porque o sistema não quer índices negativos. Então, para que tanta prova?

Nós professores estamos cada vez mais perdidos, dentro de uma instituição que, diante de um mundo em constante mudança, não consegue se adaptar às novas demandas. Muda-se o discurso, mas não se mudam os métodos. Mal pagos, temos de trabalhar o dobro de horas de um professor universitário para não ganhar a metade do seu salário. De tão exauridos, com mais de 40 horas semanais, como ter ânimo, criatividade e alegria para enfrentar dez aulas num só dia?

Sempre recordo uma pergunta feita a Paulo Freire. Qual a principal qualidade que um professor deveria ter? Gostar de viver, ele respondeu. Outro grande educador, Rubem Alves, costumava dizer que o bom professor era um professor de espantos, alguém maravilhado pela existência, que irradiaria esse encanto para os seus alunos. Gosto de viver, amo ensinar, e creio que em muitos momentos demonstro paixão pelo que ensino.

Sim. Há encanto na escola. Há desejo de viver, há sonho. Mas isso acontece, muitas vezes, não por causa do sistema, mas apesar dele.

Enquanto se viralizam vídeos promocionais sobre o novo programa ou prêmio de alguma secretaria de educação, um professor tem de se haver com problemas reais da vida de seus alunos, ou da sua. É nesses interstícios entre uma data festiva e o próximo vídeo das redes que a vida real acontece, todos os dias, dentro da escola.

Se há um sentido para a educação, é nesse encontro que ele deve ser buscado. Por mais árduo e raro que tenha sido, nos últimos tempos. Ninguém fotografou, ninguém curtiu. Mas a vida concreta de estudantes e professores ali aconteceu.

A ela eu sempre retorno e me alegro, mesmo que estropiado.

                                                                                                                                                                                            Diego Renê

*

A sessão Rumos Vários pretende ser publicada sempre na segunda quinta-feira de cada mês.

A ilustração das crônicas é de minha filha de 7 anos, Celina Yukie.

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