Sou um mentiroso inveterado. Não, minto. Mas é quase isso. Quando foi mesmo a última vez que faltei com a palavra? Agora há pouco devo ter dito alguma coisa pros meus filhos, ou no domingo, ou semana passada. Não lembro. Se não foi pra eles, com certeza foi pra algum amigo ou conhecido. Lembrei: Rapaz, quanto tempo, meu amigo Fábio! Eita, povo difícil! Vamos se ver! Qualquer coisa, passa lá em casa! Pois é, Diegão, qualquer coisa, a gente marca esse encontro!
E tchau, tchau, amigo. Até o ano que vem, ou o próximo.
Não é por falsidade, nem por falta de carinho, nem por falta de vontade. É até difícil explicar o que me leva a prometer coisas que, definitivamente, não cumprirei – ou cumprirei com muita relutância e penitência. Diria, é por força do hábito. Por qualquer motivo, lanço um qualquer coisa, e já se foi mais uma promessa mal paga.
Eu tenho um longo histórico de promessas, planos e acordos feitos de última hora, mas que se provariam, no dia seguinte, uma miragem das mais feéricas. Me manda aquele texto que corrijo pra você. Se eu posso ir buscar todo mundo no carro? Claro, nem que dê duas viagens! Se a gente pode lançar esse projeto mês que vem e fazer uma grande divulgação nas redes e na rádio? Pra ontem! Vamos correr no domingo, 5 da manhã? Você quer participar desse encontro virtual pra discutir o novo orçamento da lei que financiará a cultura e os artistas independentes de…? Quer ir no aniversário da minha tia que você conheceu ano passado? Quer participar de uma ação social do grupo…? Então, pra tudo eu digo: Qualquer coisa, a gente vai!
Entendam-me, por favor. Para muitas dessas ocasiões, se não todas, a vontade é sincera de aceitar e cumprir com o aceite. Mas até o dia seguinte. Quando a vida e suas premências tentaculares já terá me engalfinhado com a próxima tarefa inadiável – e eu já terei me esquecido do convite simpático.
De uns tempos pra cá, percebi que havia um sinal de alerta – ou desalerta – para saber se um convite era aceito de fato ou não. Se eu, ou o meu interlocutor, dissesse as duas palavras mágicas – qualquer coisa, – era sinal de que o acordo tinha o mesmo peso daqueles combinados de fim de festa.
O meu alerta se provou verdadeiro. Com o tempo, porém, fui percebendo que esse costume era, não uma falta grave de caráter, mas um imperativo banal e rotineiro na vida de todos, a despeito do que pregam as regras de etiqueta. Ou a honestidade.
Estou na fila do pão e encontro um antigo colega de escola, um ex-vizinho ou um conhecido qualquer de cujo nome nem me lembro. Ei, rapaz, quanto tempo! Como vai? E os seus pais? Já casou, tem filhos? Bom te ver, mano! Vamos combinar qualquer coisa. Vamos. Me passa teu número. Qualquer coisa, a gente vai… Chega a minha vez. Eu me apresso a fazer o pedido e aceno com a mão. Tchau, amigo, qualquer coisa, a gente se vê.
Da mesma forma, já recebi inúmeras promessas de qualquer coisa, vírgula. Qualquer coisa, meu filho, o papai vem te buscar pra te levar no parque. Se der certo, Dieguim, você vai com seus primos pro passeio. Qualquer coisa, amigo, você fica com a gente no time. Quem sabe, meu bem, a gente pode sair amanhã, você vem me buscar. Qualquer coisa, amor, a gente viaja pra Portugal e aproveita esse show. Se der mesmo, mano, a gente faz o maior evento da cidade. Dá até pra fazer dinheiro com isso.
A lógica do qualquer coisa, como se vê, é que ele é genérico. Serve pra tudo. Tanto para o sim, como para o não. Pode ser que aconteça, como a promessa sugere. Mas pode ser que não, como na maior parte das vezes. Qualquer coisa, deixa-se em aberto o caminho e o convite. A sorte está lançada.
Já há algum tempo, eu parei de me recriminar por lançar os meus qualquer coisa, vírgula. Não julgo mais que seja falta de caráter ou de palavra. É um recurso de sociabilidade. É um convite à permanência do vínculo, sugerida pela imprescindível vírgula. Essa vírgula é sutil. Ela não interrompe, não questiona, não se expande, nem finda o diálogo, ela só pausa aquilo que nunca termina: o jogo de representação de papéis.
Além de tudo, o qualquer coisa deixa no ar o tão necessário entusiasmo, sem o qual nenhuma boa conversa viceja e conclui-se com um gostinho de quero mais. Como toda prosa, o que se quer não é exatamente a verdade e o retrato fiel de si ou do ouvinte, mas sim um momento agradável de conversa. É a estória que prefere mesmo ser só estória – e não história.
Por isso, qualquer dia desses, da próxima vez que encontrar meu amigo Fábio, vou saudá-lo com a mesma alegria e dizer: Meu amigo, meu irmão, a gente precisa se sentar e ter uma longa conversa. Faz tempo que não nos vemos. Qualquer coisa, vá lá em casa amanhã. É segunda à noite, não faço nada.
Diego Renê
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Na última crônica – de 12 de março –, eu havia combinado de publicar um texto sempre na segunda quinta-feira de cada mês. Como visto, foi um acordo “qualquer coisa,”. Em minha defesa, tenho de alegar que eu até havia começado o texto. Mas justamente em 1º de abril…
Agora, é sério. Dia 11 de junho, eu volto.
Qualquer coisa, a gente se vê aqui.
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A sessão Rumos vários pretende ser publicada sempre na segunda quinta-feira de cada mês. Pulamos abril exclusivamente para honrar com o tema da crônica de hoje.
A ilustração das crônicas é de minha filha, Celina Yukie.
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