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Quinta-feira, 30 de Julho 2026
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Duflay

a vida de um cão e seu amigo

Duflay
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Ele chegou numa noite de chuva. Veio molhado, tremendo e grunhindo. Numa caixa de papelão, aquela bolinha de pelos negros deixou suas primeiras marcas: um misto de leite, mijo e pelos molhados. Mas para um menino de oito anos, nenhum presente jamais fora tão cheiroso e amado.

    Pintinhos coloridos, galinholas, patos e até um carneiro enjeitado ele já tivera. Mas um cachorro era diferente, porque só um cachorro olha para você e te pede atenção. A mesma atenção que ele te devolve, sempre em dobro.

    O pai foi quem escolheu o nome: Duflay. Ele garantiu que existia. Na verdade, era o mesmo nome do cãozinho que ele tivera na infância. Em pouco tempo, Duflay se tornou um nome familiar e querido. Cresceu ligeiro e aos poucos seus pelos negros deram lugar a manchas de um vermelho fusco de meter medo. Como bom mestiço de Fila, ele latia grosso e se impunha. Um cão de guarda ideal. Mas, para o menino, mais valia a sua amizade.

    Na vizinhança, Duflay disputava, sem muita vantagem, o posto de cão mais valente. Ralf e Rex eram dois brutamontes de Fila puro-sangue. Qualquer vizinho corria pra dentro de casa, se um deles se soltasse. Com o Duflay era diferente, bastava manter distância e não encarar.

    Se, em sangue e porte, perdia pros valentões, nenhum outro o vencia nas trapalhadas, estripulias e raivas que ele aprontava para toda a família. Chinelas comidas, roupas rasgadas, latidos de tirar o sossego dos vizinhos, carrapatos monstruosos, mijos nas rodas e cantos da casa, e os perigos constantes das fugas pra rua. O rajadinho era temperamental, zangava-se fácil, e o risco de mordidas não era pouco. Uma vez aconteceu.

    Mesmo com tudo isso, foi ele a melhor companhia que o menino podia ter, do fim da infância até o amadurecimento espinhoso da adolescência. Um animal zangado, às vezes fedorento, sexualizado e voraz, mas sempre à espera de alguma ternura. Como o próprio menino. O primeiro companheiro da solidão inacabável da vida, a testemunha e o confidente do seu amontoado de caos, revolta e sonho.

    Limpando o quintal sujo, lavando a casinha, banhando-o com o melhor xampu canino, comprando a coleira mais bonita e indo passear com seu cachorro cheirosinho, o menino podia imaginar que a vida, com um pouco de cuidado e disposição, até que tinha bons momentos, e era digna de um passeio. Um passeio que ele gostava de fazer acompanhado do pai.

    Ao antigo Campo de Aviação iam os três. Ao chegarem, Duflay era solto da coleira e corria livre pelas matas e piçarras da estrada. Não mexia com ninguém, cheirava outros cachorros ou alguma carniça ao relento. Fazia suas necessidades, marcava território, se esfregava na areia quente ou molhada de chuva, e depois acompanhava pai e filho. Enquanto o sol se punha bem na entrada do Campo, os três voltavam para casa.

    Aquelas caminhadas, tão descompromissadas, foram os melhores momentos que o menino teve junto com o pai e o seu cachorro. Todas as tardes, ali, na poeira vermelha do Campo de Aviação. Lá, onde ainda hoje repousa Duflay.

    Aventureiro e paquerador, suas fugas para a rua, às vezes, duravam dois, três dias. Quando voltava, vinha magro, ofegante e ferido. Numa dessas, adoeceu. E não resistiu.

    Vendo o amigo prestes a se despedir, o menino contemplou pela primeira vez o silêncio e o vazio da morte. Uma morte que não era a natural e esperada, no fim de uma longa vida. Uma morte que era o fim absoluto de tudo.

    Soluçando enquanto acariciava o amigo, que mal abria os olhos, o menino era consolado pela mãe. Chore, meu filho, chore agora do lado dele. E lembre sempre de valorizar aqueles que ama, enquanto estão vivos. Porque essa é só a primeira despedida que você faz na vida.

    Palavras de mãe, doces e salgadas, como as lágrimas. De tudo o que já ouvira ou ouviria da mãe, aquelas palavras, naquela noite, teriam um sentido especial. Duflay era mesmo um cachorro único. O quinto membro da família.

    Se existe um Paraíso humano, ele tem de ser também dos animais. Um Campo, onde um dia tornarão a se encontrar menino e seu cão.

Diego Renê

*

A seção Rumos Vários pretende ser publicada sempre na segunda quinta-feira de cada mês. (Desta vez, foi na última…)

A ilustração das crônicas é de minha filha de 7 anos, Celina Yukie.

Créditos (Imagem de capa): Celina Yukie

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