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Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2026
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Rumos Vários

Viver é repetir-se

crônica a pedido do meu amigo Belinho

Rumos Vários
Por Rumos Vários
Viver é repetir-se
Celina Yukie
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Pisco os olhos e lá está ele. O vira-lata caramelo. Quando foi a última vez que nos vimos? Ontem mesmo. Ou terá sido antes de ontem? Não foi semana passada? Já perdi as contas de quantas vezes nos vimos, ou de qual a primeira vez que o vi. Mas foi por revê-lo quase todos os dias que o pensamento insistente ficou. O que mais se repete todos os dias? Aliás, não haverá um cansaço de ser simplesmente o que se é — todos os dias?

É preciso admitir. Há uma estranha regularidade nas vidas de todos nós todos os dias a todo momento de toda santa manhã de trabalho a toda sagrada noite de descanso. O dia começa ao sair de casa – porque aquilo que fazemos antes disso é só um ritual de iniciação para este momento –, lá fora dobramos a esquina no mesmo horário, cruzamos com as mesmas caras (tão apressadas quanto nós) e seguimos para o cadafalso de nossa derradeira lassidão: o trabalho.

Muitos vão premidos pelo atraso, outros vão saturados de demandas (mais virtuais que concretas), alguns vão aflitos pelas doses diárias de incerteza, outros vão rotos pelo acúmulo de noites não dormidas, poucos vão energizados pelo início de mais um dia – mas eles existem, às vezes eu sou um deles! –, a grande maioria vai simplesmente cansada, para mais uma segunda, que parece que foi ontem, e é hoje, mas também amanhã.

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Mesmo assim, tudo começa. Mãos à obra, que viver é urgente. E por um estranho encantamento, quando o rojão principia, a luta contra os leões de cada manhã nem é tão medonha como parece. É só repetir o que foi ontem e anteontem, mês passado, 2024, 23, 22, 12… que o tempo passa e nem percebemos, e logo voltamos para casa e logo é sexta-feira. Mas eu pisco os olhos. E de novo o cão aparece.

São quase 7 da manhã e outra vez lá está ele, na mesma esquina. Todas as manhãs. O vira-lata caramelo. Às vezes sentado, às vezes deitado, às vezes latindo com alguém. No mesmo instante, o mesmo motoqueiro passa pela gente, a senhorinha varrendo a calçada, o ônibus escolar, o carro fumacento, o sinal amarelo – dá tempo passar? –, velhos rostos conhecidos, outros novos, e estaciono na praça.

Bons-dias, bons-dias, bons-dias. Estarei melhor hoje? Melhor do que ontem ou que ano passado? Repetir-me é sinal de resistência e força ou é comodismo e marasmo, covardia em suma? São muitas as questões que o tempo lança à mão. E a nossa consciência nunca para de se reformular. Não obstante, somos os mesmos. Na mesma pacata regularidade de todo santo dia. Na mesma extraordinária beleza que é repetir-se indefinidamente e ir de encontrões e espantos alterando minimamente a rota dos nossos planos.

Sim. Há mesmo uma enfadonha repetição em cada dia sucessivo. Mas há também o deleite de se ir refazendo, recriando-se e transformando-se a cada dia, numa espécie de árduo trabalho para escalar o monte que finalmente nos ascenderá à tão esperada glória de… Esqueci-me do quê. Mas é por aí.

Sei que as melhores coisas da vida vêm com trabalho, persistência, sacrifícios até, e muita, mas muita repetição. Tornar-se bom em alguma coisa é um trabalho de horas e horas repetindo-se ad infinitum, e sem garantia de qualquer sucesso. De alguma forma, é preciso acreditar que haverá uma luz no fim da jornada. Às vezes, sem esperar, a mágica acontece. De repente, estamos outros. Que gostosa sensação. Um novo corpo, um novo rosto, uma nova voz, uma nova habilidade, um novo amor, uma nova vida.

Tudo porque repetimos uma mesma prática cansativa até que ela nos alterou, definitivamente. O risco, no entanto, é escalar a montanha, para lá no ápice perceber-se que tudo foi em vão, nada mudou. E a pedra-fardo do nosso trabalho rolou ladeira abaixo. Como a pedra do Sísifo caindo de novo e o trágico herói subindo novamente a montanha para lançá-la abaixo de novo e de novo.

É preciso imaginar Sísifo feliz, dizia Camus. É preciso imaginar que no estranho absurdo que é essa repetição de nós mesmos por todos os dias, não estamos apenas nos alienando de nós mesmos, no estranhamento que é se apartar da própria vida, ao repeti-la agora, agora, e mais agora.

Onde encontrar lucidez para viver com clareza a simultânea repetição de nós mesmos pelo tempo acelerado desta vida esquizofrênica? Não faço ideia, mas tenho uma pista. É preciso desacelerar. É preciso menos estímulos. É preciso calma. E alguma pausa.

Dia desses eu vinha caminhando e encontrei o Belinho (era esse o nome que meus filhos tinham dado ao cão caramelo) e seu dono. Me apresentei e falei do apego dos meus filhos ao cãozinho que viam todas as manhãs. O homem, seu Antônio, disse o nome verdadeiro do animal: é Lyon. Voltei pra casa animado pelo encontro. Falei pros meus filhos o nome dele. Debalde. É Belinho mesmo e ponto final, disseram.

Talvez, apropriar-se de todas essas ocorrências do dia a dia, torná-las irrevogavelmente nossas e de mais ninguém, seja apropriar-se de uma pequena fração de liberdade. A liberdade de se espantar com uma experiência que é definitivamente só nossa. Mesmo sabendo que a dividimos com outros.

Mas de vez em quando é preciso pausar, caminhar e falar com o vizinho. Ainda que seja para descobrir que nada do que pensávamos ser, de fato é. Entre a fantasia que anima e a realidade de pôr os pés no chão, deve haver uma vereda por onde caminharmos.

Mais tarde é segunda, já revejo o Belinho. Agora vou piscar para ele e dizer: Finalmente, Belinho, ops, Lyon, finalmente escalei minha pequena montanha. Concluí a crônica que você me pediu.

Diego Renê

 
*
Sobre a capa: pedi a Celina para que desenhasse aquilo que mais ela gosta de fazer em casa. Tá aí. "O sábado é uma ilusão", dizia Nelson Rodrigues. Mas que bela e gostosa ilusão...
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