ELA ADORA IR PARA A ESCOLA. Lá, encontra outras crianças, com as quais só pensa em brincar, correr, sorrir e ter a atenção que não recebe em casa. Mas mesmo disso não se dá conta. Ela pensa que, em casa, sua avó e o preposto de avô a tratam naturalmente. Bruna é o nome dela. Tem 11 anos, mas poderia ter quatro, não faria muita diferença. Tem a inocência de uma menina que aprende pela primeira vez o funcionamento do mundo e das palavras e, que por isso, vive encantada, com um sorriso meio perdido e desproporcional, mas sempre estampado na cara.
Talvez, ela se ache a criança mais sortuda do mundo, ou só feliz, feliz, sem porquê. Afinal, não há sempre uma novidade com a qual se entreter, brincar e rir como ela o faz? Todos não estão rindo dela o tempo todo, especialmente na escola? Naquela escolinha que ela tanto ama, num interiorzinho perdido com nome de palmeira.
Todas as manhãs ela acorda cedo, e é tanta a emoção que vai como acorda, sem banhar, talvez nem escove os dentes, porque também não comeu. A euforia é tamanha que quando passa a kombi do seu Dimas ela corre pra pegar o seu lugar. As outras crianças, maliciosas, gargalham sempre ou repetem “Lá vem a doida”. Ela não liga, sorri com os olhos meio arregalados e se senta com seu caderninho todo amassado e rabiscado com arabescos que ela finge entender. Bruna adora o percurso até sua escola. Vai calada, porque ninguém conversa com ela, mas sorrindo contente com essa pequena aventura diária.
Já na escolinha, o novo professor a espera junto com as outras crianças. Hoje é dia de festa. Despedida do ano. Brindes e uma peça teatral. Ela participa como parte da plateia, este nome engraçado que acabou de aprender. Tem que ficar sentada, diante do palco em que vê seus colegas, mais velhos ou mais novos, encenarem os Três Porquinhos. Gargalha, bate palmas e os pés no chão, como se aquele fosse o dia mais especial da sua vida.
Que importa que em casa viva com uma avó zangada e com um homem velho que sempre a olha com olhos estranhos e suspeitos, como se visse uma mulher? Da mãe, ela não tem lembranças, só sabe que fugiu para São Paulo. Ah, mamãe, você não sabe o que perdeu hoje na escola! Eu fiz parte de uma peça, fui a plateia! Acredita? Estava bem na frente, na primeira cadeira. Os atores falavam e olhavam pra mim, mamãe! E eu ria com eles. Até as crianças de trás, animadas, riam e gargalhavam. De mim, mamãe! Foi o dia mais feliz da minha vida, mamãe. Você tinha que ver!
Diego Renê
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A “Florzinha murcha” faz parte da pequena trilogia de 33 estórias passadas em Piripiri, composta por buganvílias, urtigas e capim-santo. A menina Bruna, real ou imaginada, orbita num universo só seu, transitando entre o sonho e o delírio, entre a alegria e a loucura. Eu a conheci há exatos 10 anos. E dela jamais me esqueci. Ela é um capim-santo.
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Justificativa: A outra menina, Celina Yukie, dessa vez deu trabalho para fazer as suas artes. Como estava de férias da escola, acabei não cobrando tanto dela também. É por isso que os textos demoraram a sair. Vão os dois, como prometido, agora juntos, no mesmo domingo. A outra estória – uma urtiga – segue no próximo link.
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A seção Rumos Vários é sempre publicada aos domingos, a cada duas semanas. A ilustração é da minha filha, Celina Yukie.
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