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Segunda-feira, 20 de Abril de 2026
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Rumos Vários

IRON MAIDEN

A história de uma campanha vitoriosa

Rumos Vários
Por Rumos Vários
IRON MAIDEN
Celina Yukie
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O HEAVY METAL mudou a minha vida. Por causa dele, conheci a Filosofia e a Literatura. Eu jamais seria o mesmo. Mas, ainda na adolescência, meus amigos e eu provaríamos o poder daquelas músicas. Tudo começou com uma banda.

O Iron Maiden possuía uma legião de fãs pelo mundo. Nós, brasileirinhos de 2000, em plena puberdade, tínhamos, com o grupo, uma nova forma de sentir e de sonhar. A revolta, a angústia, a solidão ou o medo de ser eram todos canalizados em suas músicas.

Víamos, nos seis integrantes da banda, modelos de masculinidade e de aventura. Queríamos ser como eles, ou coisa parecida. Éramos jovens, um dia formaríamos a nossa própria banda. Mas, enquanto isso, decidimos formar o nosso próprio time. O Iron Maiden.

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A ideia surgiu numa roda de conversa. Formar um time para ser imbatível. Se possível, formar um que fosse uma legião. Não apenas em uma única modalidade, mas em várias. Nós conhecíamos os melhores atletas. Era só questão de convidá-los para o nosso Iron Maiden.

Nos anos 2000, em Piripiri, além do campeonato das escolas, o JEPIR, havia uma série de torneios e amistosos disputados pelos mais variados times de futsal ou handebol. Equipes como Braga Santos, Big Box, River Plate e Boca Júniors disputavam não só um troféu, mas as mentes de toda meninada. Vestir o uniforme dessas equipes era sinal de honra. Em alguns casos, de glória.

Todas eram lideradas por homens cujo ofício era preparar jovens para o mundo dos esportes. Veteranos como Antônio Rodrigues, Beneval e Sânzio tinham escolinhas de futebol, das quais formavam os seus times. Verdadeiros projetos sociais, nos quais eram educadas e treinadas muitas crianças e adolescentes das mais diferentes origens.

Então, inesperadamente, um grupo de meninos resolve montar o próprio time para competir com os grandes do futebol. Não só isso: resolvem competir em todas as categorias possíveis. O ano era 2003. O campeonato era um que reunia não apenas aqueles times de várzea, mas as escolas. Era um campeonato novo, organizado pelo Rotary Club: o Pró-Juventude.

Competimos em 4 modalidades diferentes: futsal, futebol de campo, handebol feminino e tênis de mesa. Temos os maiores craques. Seremos imbatíveis. Só falta uma coisa: um uniforme. É o que providenciamos. A inspiração não poderia ser outra: a própria banda possuía um time de futebol. No DVD do Iron Maiden no Rock in Rio de 2001, Steve Harris, o baixista e fundador da banda, aparecia vestindo a camiseta do time. Queríamos ser como ele em ação – no campo ou na quadra.

Já se passaram 23 anos desde que vestimos, pela primeira e única vez, aquelas camisetas. Mas ainda guardo o assombro de quando as recebemos, numa caixa mágica da Uso Contínuo, e as vestimos para jogar o nosso primeiro jogo.

O Iron Maiden disputava muitas categorias. Esperávamos vencer algumas delas. Mas sonhávamos, acima de tudo, vencer o Futsal Sub 14, o sonho supremo de todo adolescente que ama jogar bola.

O nosso time era formado pelo Michael e o Gilmar (vulgo “Tchurea”) no ataque; pelo Wesley (vulgo “Nikita”) e o Raniere, na zaga; e por mim, no gol. No banco, estavam amigos igualmente valiosos: Isaac, André, Éwerton, Dércio e Valdeir. Em outros momentos, já havíamos sido rivais. Alguns, já haviam amargado derrotas homéricas. Agora era diferente.

Naquele tempo, havia poucas quadras disponíveis na cidade. Os jogos oficiais costumavam acontecer em três delas: a quadra da AABB, junto com o futebol society; a Quadra Cearense; e grande palco dos nossos sonhos (ou pesadelos): a monumental Quadra Coberta. Jogar nela, com a casa lotada, era um batismo de fogo. Ou de sangue. Mas vencer era a consagração suprema. Um sonho de anos de espera. Como era o nosso.

Agora que recordo toda essa história, a memória me escapa um pouco. Não lembro de todos os jogos, claro. Mas alcanço, sim, momentos cruciais.

Uma campanha insuperável no tênis de mesa. André Felipe e Isaac Mamede eram os monstros do pingue-pongue em Piripiri, naquela época. Como cada um competia numa idade diferente, conquistamos duas medalhas de ouro.

Um jogo das meninas no handebol. Minha irmã era armadora, jogava junto com Frankmara e Marina. Eu era o “técnico”. O jogo era acirrado. Num momento crítico da partida, Frankmara se machuca. O braço começa a sangrar. Sem nenhuma experiência com aquilo, improviso um esparadrapo e conseguimos estancar o sangue, para que ela volte ao jogo. Debalde. Perdemos a partida. Mas, quando penso em todas as meninas que apostaram no nosso sonho do Iron Maiden, inclusive comprando os seus uniformes – que ficaram tão lindos nelas –, não deixo de sentir que o time que venceu o campeonato não chegava aos pés do nosso. Em garra e amizade.

Juntos, dávamos o nosso sangue. No meu caso, literalmente. 

Penúltimo jogo que guardo na memória. Na quadra da AABB. Vencíamos de lavada. Há alguns jogos, eu e André tínhamos inventado uma estratégia de fazer gols juntos. Ele era atacante. Como goleiro, eu tinha muita habilidade e força nas mãos. Assim, quando pegava na bola, procurava o André e a arremessava em direção ao gol do adversário. A bola já ia em direção à rede, o André só encostava nela para validar o gol. O goleiro não esperava por aquilo, o gol saía fácil.

Então, nesse jogo, o goleiro adversário se enfurece com a nossa goleada e é expulso da partida. Não contente com o cartão vermelho, fica perto da minha trave, me provocando. Eu, que estava nas nuvens pela vitória, faço pouco caso. Ele não para. Eu me esquento. Chamo ele pra briga, no meio do jogo. Ele não espera.

Eu pisco os olhos e não vejo mais nada. Minha cabeça é alvejada por uma saraivada de murros. Quando volto à consciência, meu nariz parece um tomate esmagado. O jogo é encerrado. Eu vou ao banheiro e ao gelo.

Nunca havia brigado na vida. Nem pude preparar os meus punhos para me defender. Eu já estava a nocaute. Meus pais, felizmente, nunca souberam disso. Cheguei em casa e disse que havia batido o nariz na trave. Foi a única vez que menti até pra minha irmã.

Esse episódio me marcou profundamente. Por muito tempo, tive que encarar na rua o meu algoz. Ele me atormentava. Sabia que eu o temia. E me provocava. Eu, sem defesas, só podia evitar encontrá-lo – e esquecê-lo. Eu tinha os meus amigos. Era isso que importava.

Vejo a foto do nosso time. Os dez jogadores sorrindo, pelo sonho realizado: vencemos a final. Meu nariz ainda inchado. Minha camiseta vermelha, há poucos dias manchada de sangue, agora brilhava, invicta. Nunca uma vitória tinha sido tão comemorada. Na Quadra Coberta, a arena dos nossos desejos, vencíamos, num jogo disputadíssimo, por 4 a 3. Contra quem jogávamos, eu esqueci no ano seguinte. Os vices nunca são lembrados, é um fato. Lembro dos gols decisivos do Gilmar. E lembro de um gol de falta que levei. Depois disso, lembro da foto, incluindo todo mundo e a minha irmã. Uma fã, como nós, do Iron Maiden.

Esse é o maior registro que tenho de uma amizade da adolescência. O nosso time teve a sua apoteose naquele dia. Nunca mais jogamos de novo. Todos seguiram caminhos diferentes e dispersos na vida. Pouco nos vimos, desde então. No entanto, aquele campeonato e aquele pretensioso time de meninos uniram as nossas vidas para sempre.

Mesmo que jamais nos vejamos novamente, sei que ainda somos os mesmos grandes amigos daquela época. Tudo porque, um dia, fizemos parte do Iron Maiden. Um time que encarnou todo o som da nossa fúria.

Diego Renê
*
        Depois de um tempo afastado das crônicas, volto finalmente. A proposta, agora, mais modesta, é ter pelo menos uma crônica por mês. Sempre, na segunda quinta-feira de cada mês. Vejamos se cumprimos com a promessa.
        A arte é da minha filha, Celina Yukie, que promete continuar com as ilustrações, desde que eu não coloque mais um time inteiro para ela desenhar...
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